A ORIGEM DA PSICANÁLISE

 


O texto Primeira Lição em Psicanálise chama atenção por alguns fatores importantes. Ele explica as origens dessa abordagem e deixa claro, desde o princípio, que Freud não participou do começo, mas sim o Dr. Joseph Breuer, durante o tratamento de uma jovem “histérica”.

A moça apresentava várias perturbações físicas e psíquicas, inclusive nos movimentos oculares, e repugnância por alimentos, além de uma impossibilidade de beber durante várias semanas (muito embora estivesse acometida de uma sede martirizante). Sua expressão verbal ficou tão reduzida que não conseguia falar sua língua materna e adentrava estados de confusão (“absence”).

No começo, o Dr. Breuer não pretendia curá-la, mas, dispensando-lhe simpatia e uma carinhosa observação, os primeiros cuidados foram prestados. Ele observou que a jovem murmurava certas palavras e, sob hipnose, repetiu-as para incitá-la a associar ideias. Surgiu aí a “talking cure” (cura pela conversação) ou, como também se chamou, “chimney sweeping” (limpeza de chaminé).

Segue o relato da sessão de hipnose:

 

`Tinha havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria de sede horrível, pois, sem que pudesse explicar a causa, viu-se, de repente, impossibilitada de beber. Tomava na mão o cobiçado copo de água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Nesses poucos segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, melões etc. Quando isso já durava perto de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua “dama de companhia” inglesa, de quem não gostava, e contou então com demonstrações da maior repugnância que, tendo ido ao quarto dessa senhora, viu, bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento.

 

Depois da sessão de hipnose, quando a jovem conseguiu exteriorizar sua raiva reprimida, pediu água para beber, tomou bastante, e sua perturbação desapareceu definitivamente. Até então, não se havia notícia de que alguém houvesse removido um sintoma histérico, muito menos penetrado tão profundamente em sua compreensão ou causa.

O acontecimento rendeu estudo, e o Dr. Breuer, por meio de pesquisas posteriores, concluiu que quase todos os relatos de histeria haviam se formado de “resíduos de experiência”, experiências emocionais que foram posteriormente denominadas “traumas psíquicos”. Com o tempo, observou-se que nem sempre um único fato gerava o “trauma”, mas sim muitos outros, muitas vezes análogos e repetidos.

Entendeu-se que tal cadeia de recordações patogênicas deveria, então, ser reproduzida em ordem cronológica e, precisamente, inversa, sendo as últimas em primeiro lugar e as primeiras em último, a fim de que se chegasse à raiz do trauma (muitas vezes o mais ativo), considerando-se também que seria impossível chegar ao mais antigo sem passar pelos mais recentes.

Com o tempo, a teoria de Breuer sobre os estados hipnóides foi considerada supérflua e abandonada pela psicanálise, mas seu legado é importante porque explica a origem da técnica da associação de ideias. Além disso, como diria Freud, “teorias completas não caem do céu”.


Referência:



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